quinta-feira, 24 de março de 2016

É golpe?

   Nestes tempos de turbulência política e econômica (nesta ordem),  em que a  análise  feita pela manhã  já não é válida para a  tarde do mesmo dia,  é muito complicado fazer  qualquer prognóstico em relação  ao futuro do  governo Dilma,  mas eu sei  o que vai acontecer  com  a  classe trabalhadora.

   Pra tentar explicar toda essa conjuntura, é importante lembrar algumas  coisas do  primeiro mandato de Dilma:   crise internacional,  declínio  dos preços de  comodities,  ameaça de  desemprego aqui no Brasil, desoneração fiscal  com o  intuito de  garantir o emprego...

  Por consequência,  caiu a  receita e  por outro  lado os gastos continuaram os mesmos e  até aumentaram;  e  o que faz um governo que está  sem  dinheiro?  Emite títulos públicos e comercializa no mercado financeiro,  existem 12 instituições  financeiras que são credenciadas para  fazer  essa  negociação,  são  os "dealers",  a cada  6 meses a  lista muda.  O financismo se espalhou pelo mundo, e aqui não foi  diferente,  sequestram  governos e  impõem  sua  agenda.

   Com o agravamento do quadro econômico, o  governo precisou emitir mais títulos  e  assim foi se complicando mais; até  2013  a União  conseguiu  fazer  superávit primário,  isso significa: receitas primárias (impostos basicamente) menos  despesas primárias  (gastos sociais, juros não entra na conta!!), esse  dinheiro  que  sobra  deve ir para  pagamento de  juros  e encargos da  dívida mobiliária (títulos públicos).  Em  2014,  as receitas caíram mais, os  serviços da  dívida foram pagos  com a emissão de  novos títulos, e  o  tal superávit primário foi quase  zero.

   Durante a  campanha, segundo  turno,  Aécio   fala que a economia está degringolando,  que é  preciso tomar  medidas e  recolocar o país nos  trilhos,  Armínio Fraga, cotado para  ministro da Fazenda (banqueiro),  diz em um vídeo  que  os  salários estão altos,  que isso precisa ser revisto,  a questão da previdência  também precisa ser revista,  por  outro  lado  Dilma  diz que não vai mexer nos direitos  trabalhistas, previdenciários e  na regra  de  correção do salário mínimo, nem que a  vaca tussa!

    Mas quem contrata  a banda,  escolhe o repertório,  Dilma recebeu mais de  R$ 350 milhões  e  Aécio  algo em torno de  R$ 290 milhões,  quem  fez  essas  doações  espera ter suas demandas atendidas.   Como em 2014, faltou  dinheiro até  para agradar  os rentistas,  o mercado ficou arisco, é preciso  ter garantias   que nós vamos  receber, senão  nada  feito.

   Quando a  economia vai  bem,  empresários  ,banqueiros  e  fazendeiros , todos  recebem seu quinhão e  redistribuem  migalhas a  classe trabalhadora que  não reclama, e fica tudo bem.  É preciso  considerar  que a  Operação Lava Jato, foi um duro golpe  nas  empreiteiras,  paralisou obras e tudo mais,  some-se a isso, a queda  do  valor do Petróleo no mercado internacional;   o mercado ficou mais arisco ainda.

   Bem, nesse cenário,   qual é a demanda dos  donos do poder?

  Os "investidores" financeiros  querem  redução de gastos  do governo, e  que  essa economia seja  revertida para os  serviços da  dívida;  os  grandes empresários  querem  redução de  encargos trabalhistas, previdenciários ,  salários mais  baixo e flexibilização da legislação trabalhista,  especialmente a  terceirização ampla.

  Mas como atender essa encomenda, sem contrariar os compromissos de campanha,  ou pelo menos  fazer  isso de  forma discreta?

  Mexendo na  política  econômica, e  por  onde se começa?  Nomeando um ex-aluno de Armínio Fraga  para  Ministro da Fazenda  e  promovendo um aumento da  taxa Selic.  A desculpa  era que a  inflação estava começando a sair do controle,  então o  remédio é  aumentar  o juros, assim  dificulta-se  o crédito , o consumo diminui   e os preços caem.   Mas por  outro lado,  o  governo  aumenta  as tarifas públicas,  o combustível, ou seja, ele mesmo provocou a  alta da inflação. Em curto  espaço de tempo a  Taxa Selic  aumentou 3%,  chegando a  14,25%aa!

  O  plano é simples, os  banqueiros  ficam  sossegados,  os  empresários  tiram dinheiro da produção e  transferem para a especulação financeiras,  sem maiores preocupações,  afinal o  governo  destinou 9% do PIB  para  pagamento  de juros  em 2015, para efeito de  comparação, o custo da  Previdência foi  8% do PIB no mesmo período.

  Qual o primeiro  efeito dessas medidas?  Queda do consumo,  consequentemente queda de  produção  e desemprego.  Tem-se a  justificativa para  os  cortes do orçamento e  também atender outras demandas dos empresários, afinal é  necessário  fazer sacrifícios, o país passa  por uma crise,  induzida  pelo  próprio  governo,  mas  é uma crise!

  Mas a  oposição percebe a estratégia, e se  tudo sair nos  conformes, a  Casas Grande fica  feliz, e dá-lhe   Lula presidente  em 2018.  Acrescente-se o fato que a base do Governo não é  lá muito leal,  e  o  PT teve  a brilhante  ideia de  dar  um "olé" no PMDB,  apostando na  criação do  Partido do Kassab,  resultado: Eduardo Cunha ,  eleito presidente da  câmara,  embolando o meio de campo  e dificultando a  tramitação das medidas de ajuste. Note que o  povo  é a primeira vítima dessa  disputa para  agradar  os  donos do poder.

   Seguimos, a  crise política  se  agrava  e tem reflexos direto na  economia;  bem, o plano  não deu certo, em  2015  faltou  dinheiro para os rentistas (que agora  incluem os  empresários) e  também para os gastos primários,  apesar de  todos  os cortes cosméticos  feitos pelo  Governo.  A Casa Grande,  resolve que não vai  esperar  dona Dilma  reverter a  situação,  é  preciso  trocar a gerente!

   E então começa, a se propagar a ideia que o Governo acabou, que não tem mais  apoio da base,  que é  preciso dar sinais de  confiança para os  investidores,  leia-se,   é preciso  que o mercado  tenha segurança  que  as  reformas estruturais  sejam feitas,  que  os custos da burguesia  sejam  reduzidos. Não tem nada a ver com a  melhoria da  condição de  vida da população, com  diminuição da desigualdade,  o que está  em pauta  é a garantia dos lucros da classe dominante!

   A mídia  começa a fazer sua parte,  afinal é  muito bem paga pela Casa Grande,  diariamente despeja notícias  ruins de  todo lado,  e como  carro chefe  tem-se a  corrupção desenfreada, nunca  foi visto tanta roubalheira;  eles  sabem como  fazer as  coisas acontecerem.  E começa o escândalo das pedaladas  fiscais,  o  governo não cumpriu metas  fiscais, não teve  superávit primário!  Onde já se  viu, pagar programas sociais e não deixar dinheiro para  os  rentistas? Um absurdo! (essa parte não é  dita nos noticiários)

   Então vamos chamar o povo pra  rua,  mas não pode ser através de movimentos  sociais  vinculados aos interesses do  povo,  vamos criar os nossos movimentos sociais,  "Vem pra rua", "Movimento Brasil Livre"  e com o  apoio da popular  entidade  FIESP. Foi um sucesso !

   A temperatura subiu, o  risco de  calote também, então vamos  propor um "impeachment",  qual o  fato?  Oras,  que pergunta! Pedaladas  fiscais! Sempre foram feitas,  mas nunca faltou dinheiro  pra  quem bancou a  campanha,  isso é  inadmissível!

   Pra atrair a  confiança  dos "investidores",   PMDB  lança  no final de  2015,  seu programa  para  sair da crise ,  "Uma ponte para o futuro" ,  o  PSDB  também tem as mesmas propostas  e  pasmem,  sai  o ministro Levy,   entra  Nelson Barbosa  e as medidas  anunciadas  são praticamente as  mesmas! Os três !  Mas quais são as medidas estruturais, tão necessárias para o Brasil  virar , no longo prazo,  uma  potência  econômica,  sem desigualdade e  com  população  de vida próspera?

   Basicamente , é:

 -  reforma da previdência, certamente com limite mínimo de idade  e  redução  dos encargos patronais, o trabalhador que pague  tudo,  se possível.
 -  desvinculação do salário mínimo  dos  benefícios pagos pela previdência, o trabalhador  não terá nem a  garantia de receber  um salário mínimo
-  mudança nas regras de  correção do valor  do salário mínimo, reajuste baseado somente na inflação
-  flexibilização da legislação trabalhista, o negociado  prevalece em  relação ao que manda a lei; terceirização
- desvinculação de  recursos  para  saúde  e  educação, no orçamento.  Por exemplo: nada de  garantir 10% do PIB  pra Educação


   Mas agora  tem um porém, o  pretexto  para descontentar a população e levar  milhões à  rua e pedir o impeachment,  é a  corrupção,  e  todos  os  3 partidos  citados e  que  apresentaram as  mesmas propostas  estão  implicados na  Operação Lava Jato,  a população  não é  tão besta assim, as  redes  sociais tem papel importante na análise da situação.

   Bem,   eu vejo  duas  possibilidades:

 1)  A oposição  de  direita consegue  emplacar  o impeachment,   vai  enfraquecer  o herói nacional, Sergio Moro, isso  já vem acontecendo, com a  desmoralização da  Lava Jato,  vem a  anulação das  provas,  o STF vai voltar a ser legalista e  vai cancelar os grampos, e  todos  se safam. As  reformas são implementadas, usando como justificativa o desastre econômico promovido pelo  PT  e com a mídia reforçando essa imagem.

2) Lula se  firma como ministro,  promove o acordão  no congresso, barra o impeachment,  promove a desmoralização da lava jato,  livra a cara de todo mundo e  ainda acalma os donos do poder  em relação as  reformas

  Respondendo a  pergunta do  título deste post,  sim  ,   pra mim "impeachment"  sem fato determinado é  golpe,  mas é    parte de um golpe  maior, que  vai  atingir o povão,  seja  qual  for o desfecho dessa história.

  Pode ser que tudo mude,  cada dia  surgem  novidades ,  mas uma coisa é  certa,  vai sobrar  para o povo,  só não sei  se a  população vai aceitar  com tranquilidade esse  golpe!





Um comentário:

  1. Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega! A casa Grande manda na panela do povo!!! Nada esta tão ruim que não possa ficar pior. Frases feitas, mas fieis ao que está acontecendo.

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